20/08/2011

De cima do freezer




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        Que lugar mais prosaico a cozinha, não? Particularmente, é meu lugar favorito da casa. Fico a maior parte do tempo aqui. Analiso tudo. Observo todos. A relação do homem com a comida é algo inato. É pré-histórico, na verdade. Desde sempre o homem come. Nosso velho conhecido Adão já comia. Inventou de comer a [maçã] Eva e se deu mal. Mas pelo menos satisfez seu prazer.
        Pode não parecer, mas eu tenho um coração. De gesso, leve. Mas bate forte quando presencio certas cenas. Minha pretensão é escrever um livro. Quero ser um escritor de sucesso ainda. Só preciso aprender a usar o computador. E a entender mais sobre o mundo dos homens. O ser humano é um bichinho complicado.
        Dona Lena passa boa parte do dia na cozinha, até porque é seu local de trabalho. Chega às 7h, sai às 21h. E não é trabalho escravo. Já percebi que ela adora estar aqui. Só que tem uma coisa que ela faz que não tenho vocabulário suficiente pra explicar. De 14h às 17h ela fica sozinha em casa. Tem a Zulmira, que cuida das crianças (pestes do Satanás) que moram aqui, mas passam o dia no andar de cima. Já vi, várias vezes, Dona Lena pegando comida do armário e levando lá pra fora. Queria MUITO saber por que ela vai precisar de sacos de arroz e alguns quilos de carne na sala de estar. Um dia eu descubro.
        Outra vez, a Mikaela, filha da Arlete, trouxe uma amiguinha pra dentro da cozinha. Começaram a conversar trivialidades do tipo: “Tá quente aqui, né?” e terminaram com as luzes apagadas. Posso jurar pelos meus deuses nórdicos que escutei barulhos como se alguém chupasse uma manga. É um hábito do homo sapiens feminino chupar mangas no escuro e em duplas? Será uma espécie de ritual? Um dia eu descubro.
        A Arlete é uma mulher linda. Alta, loira, imponente e poderosa. Ela vive com um celular no ouvido e um tal de aipédi que parece ser caro e importante. Ela também é viciada em bebidas pretas. Café, coca-cola e uma bebidinha azul de sobrenome animal. Ouvi-a dizer uma vez que é pra se manter acordada, manter o sustento do lar. Só sei que ela dá pouca atenção ao homem da casa, o velho Rafael.
        Eu gosto do Rafael. Foi ele quem me tirou daquele lugar horroroso e empoeirado e me colocou aqui. Pelo menos eu me divirto bastante. Posso observar o mundo inteiro de cima do freezer. Só que o Rafael é estranho. A minha espécie acha uma parceira do sexo oposto e passa o resto da vida com ela (a gente canta também para atrair a fêmea). Só que ele tem um jeito esquisito de atrair as mulheres. Com a Arlete, ele dá um beijinho na cabeça. Com a Dona Lena, ele dá um abraço carinhoso. Com a Zulmira ele dá um tapa no traseiro, aperta-o e a chama de... Será que o ritual de acasalamento dessa espécie é diferente pra cada tipo de fêmea do bando? Um dia eu descubro.
        Do meu novo bando, eu só deletaria (essa palavra aprendi nas conversas da Dona Arlete com suas conferênci cóls) os dois menores: Augusto e Nestor. São novinhos e ainda estão aprendendo a sobreviver no habitat. Ouvi dizer, especialmente naqueles programas estranhos de pessoas gritando por Deus no rádio, que Dona Lena adora assistir, que existe um tal de Inferno e que é o pior local do mundo. Eu queria enviar estas crianças pra lá. Tenho certeza que elas não gostam de mim e já tentaram me derrubar várias vezes. Malditos!
        Existe um mais velho de todos, o Edmilson. Parece-me que o mesmo está em outro estágio de evolução. Diferente dos outros do bando, ele treme. Treme muito. Todos os dias dão várias bolinhas coloridas ao velho pra ver se ele para de tremer. E ele também fala uma língua estranha que eu não entendo. Espero realmente que ele nunca chegue perto de mim...

[CRASH!]

- Anpan napa anpanaaa...
- Papai! O que você fez?
- Pingin, in ininnn...
- Oh que bagunça! Dona Lena, por favor, recolhe esses caquinhos aqui. Agora vou ter que comprar um pingüim novo.
       
      
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De cima do freezer de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogadorocomer.blogspot.com.

2 comentários:

  1. Construção inteligente. Suas crônicas estão cada vez melhores. No início, nunca pensei que fosse um objeto decorativo o narrador personagem, surpreendi-me com a descoberta. A revelação das pessoas feitas pela ótica do pinguim é muito interessante. A apresentação de cada pessoa é muito bem elaborada. Ah, gostei de tudo aqui. Falamos pessoalmente mais sobre isso.
    Bjs lindo!

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  2. “Cara!
    Sem palavras, urubuzinho.
    Tu é demais!
    Quando se veste de outras pessoas, ou outros seres, quando libera sua criatividade literária e expressa o quão profunda é sua percepção da alma (não tão pura) humana!
    Sou sua fã, meu irmão! Óh, como sinto que estou longe de ser gêmea, na expressão, mas no que você escreve, leio cada palmo do que penso!
    Parabéns!
    Xeros sudestinos!
    Klas.”

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