08/08/2011

A escolha de Sofia


Hospital Body Awareness - Maria Lassing


José de Paiva Rebouças
Cronista

Sofia é a personagem polonesa de um filme estadunidense que, presa durante a Segunda Guerra Mundial, é forçada a escolher qual dos dois filhos deveria morrer para que o outro sobrevivesse. Mas ela poderia ser uma médica ou enfermeira de um hospital do Rio Grande do Norte obrigada a escolher qual paciente salvar em detrimento do outro. A comparação com a personagem foi feita pelo próprio secretário estadual de Saúde, Domício Arruda, na última semana, referindo-se à falta de estrutura do Hospital Walfredo Gurgel, em Natal. A falta de leitos e médico é tão séria naquela unidade hospitalar que estão escolhendo salvar aqueles que apresentam maiores chances de ficarem vivos.
A situação é absurda, mas não é novidade. Não se trata de Domício Arruda, de Rosalba ou do RN. A situação caótica da saúde é nacional e, dia desses, estava nas telas da TV de Sergipe, Alagoas, São Paulo, Rio e até do Sul, onde tudo parece perfeito. O pior é que não é difícil identificar as causas que levam a esse caos; difícil é desemaranhar a rede de circunstâncias que provoca a angústia de pessoas que veem seus filhos, pais, amigos ou mesmo desconhecidos morrerem nos corredores dos hospitais lotados.
Poderia colocar a culpa na falta de interesse político, dos sanguessugas, mas o que dizer dos médicos que não aparecem para dar plantão por pura irresponsabilidade ou desprezo, do Ministério Público, que só vê tudo isso de vez em quando, ou mesmo do cidadão, coitado, com tanto medo que sofrer calado todas as humilhações nas portarias dos hospitais.
A superlotação das unidades de referência também faz parte desse emaranhado e repete as questões anteriores. Tem a ver com os prefeitos e a ambulancioterapia, com o desinteresse dos médicos de ficar no interior, com a falta de aplicabilidade correta dos recursos públicos e de uma inspeção efetiva dos órgãos de fiscalização oficiais que são muito bem pagos para isso.
Desamarrar todos esses laços seria mais fácil se, para isso, não fosse necessário convencer os envolvidos de que suas falhas éticas e morais são desencadeadoras de um dos maiores problemas sociais de nossa sociedade. Difícil é acreditar que estou falando de gente que discursa promessas, que faz juramento a favor da vida ou pela liberdade constitucional do outro; gente que é a própria lei. Difícil acreditar que não há semelhança dessa gente com aqueles que, por pura sensação de poder, obrigaram Sofia a escolher qual de seus filhos deveria morrer.

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Um comentário:

  1. Sua crônica traz a voz do absurdo. Da perplexidade, da revolta sutil desenhada em literatura. Por isso gosto tanto da crônica, porque nela cabe o fato do cotidiano contado com literariedade. Nela cabe espaço para crítica e para a indignação. Salve! Por mais um texto demasiadamente humano!
    Bjs meu querido!

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