25/08/2011

A Negra Paz, dele




Secretaria

Ele só quer a paz, que perdeu lá atrás...

Lembra-se bem dela, do gosto, do jeito, do seu leve andar.

Sabe que a paz tinha jeito de menina, olhar de mulher.

A paz era tão feliz, saltitante!

A paz era esvoaçante!

Ah, quantas saudades, ele tem dela!

A paz, de quem sente falta, se foi, deixou só um bilhetinho, contando os motivos.

Motivos que prefere esquecer.

Merece mais, lembrar-se dela, do que dos motivos, que a fez partir.

Ah, amigos, ele sente dores, pela falta que ela lhe faz!!!

Portanto, não lhe perguntem, do que ela partiu!

Mas, ouçam atentos, tudo que falo sobre ela.


A paz era quieta.

Sobretudo, e antes de tudo, quieta.

Entendam-me: o silêncio da paz, não era um silêncio qualquer!

Não! O silêncio da paz era cheio de sons.

O silêncio da paz tinha acordes variados.

Lembro-me, do som dela, que era o som dos violões, os sons do vento, o som do mar.

A paz tinha, em seu silêncio, as vozes dos amigos e das crianças.

O silêncio da paz tinha riso e tinha muitos gritos, às vezes, da meninada pelo quintal!

A paz era barulhenta, por sinal.

É do silêncio, que só a paz sabia ter, que ele mais sente falta.

Um silêncio que não se mede, mas que notávamos de longe.


Também sente falta de sua cor.

A paz dele, lembro-me bem, era negra.

Escura, como as noites sem lua.

Era linda e mansa, como só o céu escuro pode ser.

De uma escuridão para se perder dentro.

Ah, que saudade ele sente de sua negra paz!


Esta paz branca que vejo por aí, não o comove.

Nada contra o branco, mas a paz dele, era pretinha, pretinha!

Sua cor! Sim, é com sua cor negra, que sonha ainda.

Ela era escura de verdade, igual quarto fechado, para dormir.

Olhar para ela era mergulhar em um lago escuro e limpo.

Sente tantas saudades da pele negra da paz que teve!


Naquele negrume todo, ele podia perder-se, e lá conseguia ver estrelas no céu.

Ah, com sol se vê isto? Não!

Com sol não se vê direito, percebam.

Era, na negra noite daquela paz, que ele via as estrelas.

Com esta paz branca, ele não pode mais...


Ela era adocicada.

Também sei bem disto.

Não tinha este gosto amargo, de boca seca, que se esqueceu da água.

Não!

A paz tem um gosto de saliva úmida, rala, doce.

Não este gosto grosso, rancoroso, que ele tem agora, sem ela.

A paz tinha gosto de fruta, tenho certeza disto!

Não era de fruta madura, nem de fruta verde.

Era de fruta colhida na árvore, na hora.

Tinha um caldinho, que ficava na boca, que ainda sente, às vezes.

Poucas vezes.

Infelizmente.

A única coisa, que ficou de sua paz, foi este caldo.

Este gosto na boca que só lhe aumenta as saudades.

Às vezes, quando fica sozinho, no escuro, ainda escuta o silêncio dela, e consegue lembrar sua cor.

Nestas horas é capaz de sentir o gostinho dela na boca.


Ah, que saudades ele sente dela!

O gosto dela, em sua boca, faz ter certeza que ela existiu, se não, confesso, pensaria ser mentira.

Mas, agora mesmo, enquanto escrevo, vejo o ‘tal’ caldinho formando se na boca dele.

Doce.

Leve.

Suave, quase calmo.

Sim o ‘gosto’ da paz, é calmo, é possível?

Sim.

Enquanto escrevo, vejo a calma dele, vejo a paz que teve e um dia perdeu.

Os motivos?

Não importam.

Não vale a pena contar, meus amigos.

Vale mais lembrar-me dela...

Até que, (quem sabe?) ventura de minha alma, ela também sinta saudades dele, e volte, correndo, para seus braços, sua negra paz.


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