11/08/2011

Perdendo o encanto






Noiva - Thais Albuquerque

Secretária

Nesta época do ano não era preciso dizer que se lembrava dela, além de todo o ano.
E lembrar-se dela era necessariamente se sentir o último dos homens.

Ela adorava as festas de fim de ano.
As lojas enfeitadas, o ‘burburinho’ no ar, os presentes, as festas.
Pouco lhe importava se tudo era comércio, se o Natal tinha algum significado espiritual, ou não.
A ela importava a beleza, o estético, o efêmero.

Ele se arrastava pelas ruas com a alma consumida.
O cheiro dela estava no cheiro do panetone, no cheiro dos assados, das frutas cítricas.
O som do riso dela era lembrado no barulho das castanhas sendo quebradas.

Esta época fazia-o lembrar do presente que lhe comprara, na noite que ela partiu.
Naquela noite ele comprara, enfim, o anel que ela tanto pedia.
Juntara dinheiro os últimos meses e, finalmente, na caixinha de veludo vermelho estava o pequeno tesouro.
Ele iria pedir-lhe em casamento naquela noite.
Noite de Natal.

Chegou em casa, família reunida para a ceia de Natal.
Notou de imediato que todos os olhares o perseguiam.
Beijou a mãe, as tias, abraçou tios e sobrinhos, cumprimentou amigos.
Mas cadê ela???
Todos os olhos da festa fitos nele.
Até que sua irmã, querida confidente, amiga ,que jamais gostara dela vendo seus vícios de menina materialista e fria, lhe contou...
"Ela se foi... Saiu, no meio de todos, malas feitas, sorriso na boca.
Deixou só este bilhete pra ti."

O bilhete ainda tinha o cheiro dela.
Ele tentava lembrar como haviam sido os últimos dias, com medo do que leria no bilhete.
Já fazia tempo que ele percebia algo diferente.
Nunca tinha tempo pra ele.
Sempre saindo, sempre feliz demais longe dele.
Depois que começou a andar com a Lurdinha e o Cássio, pra cima e pra baixo, algo entre eles mudara.
Ia absolutamente a todos os lugares com o outro casal.
Às vezes, iam os quatro, mas quando ele estava trabalhando, ela não se importava de sair sozinha com os amigos.
E ria riso solto, quando estava com eles.
Na cama o evitava o mais que podia, e quando ele a tinha,
sempre de olhos fechados, rosto virado pro outro lado.
Gozava rápido.
Ele acha que ela fingia.
Conversar com ele só pra pedir um cheque assinado, um vestido, um perfume... e pra lembrar da mensalidade do curso... e por último, o tal anel.
Pedia todos os dias o tal anel, que era uma pequena fortuna.
Ele achou que ela queria era ser pedida em casamento e arquitetou tudo com a família.
Já estavam morando juntos a mais de dois anos e, talvez, toda a distância dela, fosse vontade de casar, ter o nome dele, planejar os filhos, estas coisas todas que a mulher quer depois dos 30 e que depois dos 35 já virou fixação.

Mas se enganara.
Ela só queria lhe extorquir mesmo.
No bilhete, categórica:
“Querido, agora já terminei meu curso, posso me virar sozinha.
Vou embora viver o meu amor.
A Lurdinha deixa, ainda hoje, o Cássio, vamos viver juntas... se é que me entende.”

Não, ele não entendia.
E o Natal então mudou de cor pra ele.

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Perdendo o encanto de Eliana Klas é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.eutodososdias.blogspot.com.

Um comentário:

  1. O texto corresponde ao título. Perca total de encanto. Reflexo das relações intempestivas e motivadas pela cobiça e pela ganância. Senti pena do personagem, mas ao mesmo tempo acho que ele quis ser ingênuo nesta história toda...
    triste fim!
    Abraços linda!
    Regiane,

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