02/08/2011

A resposta de Karina

O beijo - Gustav Klimt

Regiane Santos C. de Paiva
Professora

Karina era um arroubo só! Ficou agoniada a espera das palavras escritas de Antônio naquela máquina apática e fria. Ele veio. Ela lambia as letras dele como se tivesse comendo doce de mamão com coco, bem devagariiiiiiiiiiiiiiiiiinho, com medo de acabar. Seu juízo dava um nó, como se tivesse acabado de acordar depois de um porre de cachaça, tentando entender as contradições que ele dizia. “Mas num se avexe não, Antônio, no todo compreendi, que desde que nossas vistas se bateu, aconteceu um rebuliço medonho dentro da gente, que não se explica com definição nem argumento, mas simplesmente vai chegando que nem respingo de chuva no fim da tarde e deixa a gente numa expectativa sem saber se será passageira ou se um temporal”, ela respondia.
A ansiedade que ela sentia era arretada! Apertava-lhe o peito, não matava a sua fome, lhe tirava o sono e a concentração e a deixava com cara de besta e com uma dor na boca do estômago cada vez que o objeto de sua ansiedade lhe aparecia. Depois? Vai lhe dando uma moleza nas pernas, um tremor nas mãos e a agonia vai dando lugar a alegria, que num pede nem licença, vai se achegando entre risos, olhar e repousa num abraço. “Oxe, por que é que o abraço num pode parar o tempo? Dá vontade de se perder nele e deixar que ele se espiche do nascer ao pôr do sol e que assim suceda todo dia”, pensava Karina.
“Sabe Antônio, esse negócio de ser sincero é coisa que se constrói desde cedo, desde menino, quando confessa pra mãe- sem medo do castigo- que foi o autor da malinação. Mas se isso num sucede desde então, a vida vai lhe dando ocasião e não há remédio, se não abrir o peito diante de si e deixar que essa verdade que lhe consome em aflição, seja revelada e conhecida, porque, afinal, não há nada mais grandioso do que um home dotado de sinceridade”.
E continuou Karina com a prosa, falante que só ela:
“Outra coisa inventada pra nos dar desasossego, Antônio, é essa história de ter medo. Oh, bicho nojento que nos rouba o melhor que a gente pode ter na vida! Esse troço nos dá uma imaginação confusa e devia era de ser destruído pelo tribunal da inquisição da coragem. Quando existe o eu sou, eu sei, eu quero, este metido num tem vez, porque quando se tem certeza de algo, ele num tem cabimento e é logo eliminado pela decidida certeza”.
E seguia com a escrita num disparo só:
“Sabe a melhor parte do sonho, Antônio? Realizá-lo, este é o resultado do sonho. Satisfação que explode aqui dentro que nem rojão e faz a gente sentir no peito uma força que nem o sangrar de uma represa que inunda tudo. Quando se sonha, criamos um personagem dentro da gente que é mais valente que vaqueiro na frente do boi bravo e se fica morto de vontade de trazê-lo para o mundo real. E por que não? Por que não rasgar as vestes desse personagem e deixar que a pessoa que o possui grite todo o texto que não foi inventado, mas sentido bem lá no fundo do encabulado coração? Ah! Sei! Não se pode revelar ainda porque está perdido no meio da estrada que construiu lá atrás... Mas tudo bem, num se avexe não, pra tudo tem um tempo, inclusive para ser feliz e rir abobalhado feito criança do sertão quando, de quando em quando, visita um circo de graça”.
“Vixe Maria, Antônio, que essa estória de ‘preferir ser nada e não ter nada do que ter a vontade e não ter a certeza’ é conversa de doido. Pois ora, num é melhor logo saber se a certeza que tu busca munido da certeza que tu tem é exatamente a mesma certeza que tu quer?”
“Mas para abrandar o entrelaçar bonito de palavras que tu fez, abraço toda tua verdade dita nesta parte: “talvez eu tenha de dizer o que verdadeiramente é verdadeiro no fundo de tudo isso... ‘que eu sou uma parte do pó que compõe a estrada de terra e você é a água cristalina aqui do pé da serra’ ”. Pois sim, senti um aperto tão bom no peito que me deu até vontade de chorar, chorar de alegria, porque nunca pensei que fosse ser comparada à água cristalina que cai do pé da serra!”
Assina com muito tremor nas mãos: Karina.

3 comentários:

  1. “Reina:
    Eu morro de inveja destes seus textos!
    Morro. Morro. Morro.
    Acho lindo demais, ricos, riquíssimos!
    As frases, as palavras, o sotaque sentido em cada linha, ai! Que Delicia!
    Tem uma musicalidade maravilhosa.
    Depois que o jota falou disto, vivo “cantando” os textos!
    Adoro a história de Karina, adoro a espera dela e a coragem que um dia o tomou de assalto!
    Parabéns, por mais este belo texto!”
    Klas

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  2. Gustavo Pinheiro (FECLESC/UECE)2 de agosto de 2011 20:26

    Muito bom esse texto, gostei de verdade, me lembrou até os grandes, Ariano Suassuna e Osman Lins. Continue escrevendo vixe.

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  3. Prima, Gostei demais da porção de liberdade contida nessa narrativa, não é que seja o tema, mas a liberdade de escrita. Tu tá ficando soltinha, vc fez um vôo que foi lindo de ver.
    Voa ave palavra, voa!

    Amo-te

    Prima ASS
    lete

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