10/08/2011

Senhas




Professora


Acho muito curiosa a história do Ali Babá que, com uma palavra mágica, abriu a porta do esconderijo.

Palavra mágica...
Preciso de uma destas.
Quando pequena aprendi que palavrinhas mágicas eram “com licença”, “por favor” e “obrigada”. Grande coisa. O máximo que consegui com elas foram elogios: “mocinha educada”.
Não me contentei. Por que para alguns as palavras eram verdadeiramente mágicas? A primeira lógica que encontrei foi que as palavras mágicas estavam diretamente ligadas à posição de poder. Se um adulto, em sua posição hierarquicamente favorável, proferisse a dita cuja para uma criança, em sua posição hierarquicamente desfavorável, logo essa palavra se tornava um feito. E ai de quem não o fizesse! Mas fora dessa estrutura como funcionaria? Testei. E até que funcionava, desde que dirigida à pessoa certa na ocasião certa. Coisa de destino. O duro era encontrar a tal pessoa na tal ocasião. Mais tarde descobri que, de alguma forma, estava usando do poder. Droga! Não era magia!
Estava cheia de tudo. Era palavra certa para toda hora. Todo momento. Até no pensamento ela tinha de ser exata. Palavra passou a ser pura convenção. Signo que, ao invés de libertar, aprisiona.
Foi aí que para ser áspera, para ser apática, para ser indecorosa voltei-me à literatura. Aproveitei o ensejo e disse um basta. Passei a ser inadequada por completo. Só os loucos podem abrir e fechar portas de pedras. E quem seria mais louco de contrariá-lo?
Passo pela modernidade e suas senhas. Tenho senha para quase tudo. Senha para abrir, fechar, consultar, postar. Senha para confirmar a senha. Senhas. De revolta, uso sempre a mesma, quem sabe, por insistência todas as portas não se abram?

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2 comentários:

  1. Palavras e Senhas, perfeita dicotomia. Poder e prisão; poder e refém. As palavras dominam e libertam. As senhas nos fragilizam. Texto inteligente e intrigante, nos permite ir além da macro-estrutura, já que nos leva a mergulhar nas entrelinhas.
    Gostei muito.
    Abraços querida!
    Regiane.,

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  2. Me agrada muito a sonoridade, a sutileza, mas, sobretudo o cuidado com a escrita.

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