27/08/2011

Vá com Deus! [sujeira]



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Quando estou no banho é que tenho as idéias mais geniais. Ou, no mínimo, boas conversas com meu eu lírico. Depois de uma sessão tranqüila de número dois vendo o Jack Torrance correr feito um louco atrás do Danny com um taco de croqué, fui ao meu banho merecido de início do dia, pra espantar a preguiça, mas sem a banheira, sem os sais, sem a toalha felpuda e sem a água quente. Uma chuveirada normal de uma pessoa normal.
Enquanto enchia a mão de Head and Shoulders, pensei se o Cristiano Ronaldo realmente usava o Clear 365 dias ao ano. Pensei na Sandy também, a Devassa do ano. Bebe hoje? Acho que a Malu Mader realmente usa shampoo anti-caspa. Ela tem um cabelão e tudo... será que em suas preliminares das noites de amor, ela e o Tony Belloto fazem sessões românticas na banheira na qual ele lava carinhosamente as longas madeixas da esposa? Hm...
Sabonete esfoliante. Essa foi novidade, de fato. Peguei na prateleira o meu amigo de sempre e nem vi que o mesmo estava em uma nova embalagem. Um novo “sabor”, como costumo dizer. Esfoliante. Com cristais. Dizem que é isso que faz as células mortas caírem da pele. Será que elas sentem dor? Nah. Viajando. Água caindo. Mãos no corpo. Mente voando.
Ao mesmo tempo em que me despedi das minhas queridas células defuntas, pensei em despedidas de verdade. A minha primeira mais dolorosa foi com a minha irmã. Era a mais perfeita de todas: linda, inteligente e com cabelos de poodle platinado. Anos 80, eu sei. Nossa relação sempre foi muito próxima, já que ela cuidou de mim na infância. Até que ela anunciou que ia embora estudar em João Pessoa.
Na minha cabeça, o bairro Alto da Conceição já era longe, imagina João Pessoa! Era tão inimaginável quanto lembrar que já haviam 2 semanas que eu me enxugava com a mesma toalha. Tive nojo. Hora de trocar.
Abrindo o guarda-roupa para pegar a nova toalha vermelha, lembrei que foi dessa mesmíssima cor que fiquei de tanto chorar na sua primeira despedida. Aquele cheiro de ar-condicionado de ônibus (que depois descobri que é um dos melhores aromas do mundo – pelo menos na minha coleção mental à la Patrick Süskind) até hoje me é nostálgico. Eu a deixava na porta do ônibus e acenava até o veículo dobrar a curva do infinito. Voltava pra casa encolhido no banco de trás do carro, guardando um choro silencioso.
Quase choro mesmo quando descobri que meu perfume favorito está menos que a metade do frasco. Tenho perfumes para ocasiões. O mais caro (ou de valor sentimental maior) é para eventos mais chiques e elegantes. O médio é para o dia a dia. E a lavanda é para ficar em casa ou ir dormir. Como já dizia o pensamento filosofante de uma sábia ex-bbb, vai que eu morro durante o sono. Pelo menos morro cheirosinho.
Uma grande despedida, também, foi de uma flor mais que cheirosa da Paraíba. Morei em Campina Grande durante um tempo, em um pensionato. Tomar banho em banheiro coletivo castrava a criatividade, já que não podia pensar enquanto me banhava. Fiz uma grande amizade com uma paraibana arretada. Perfeita em seus detalhes. Aprendiz de jornalista e hoje é uma grande profissional.
Apaixonei-me. De primeira. Só que tive que voltar à minha terrinha natal. Mossoró quente dos infernos me puxou de volta. Fiquei muito feliz, não posso negar, mas a despedida foi complicada. Fiz a bela flor me acompanhar até a última ladeira perto da faculdade. “Tchau, vê se dá notícias”. Meu grande arrependimento foi não ter dito: “Não vou mais. Se você quiser, fico aqui por você!”. Mas não disse. Voltei.
Arrependimento este comparado somente à vontade que eu tenho de renovar minhas meias todos os meses. Abro as gavetas e fico pensando: “P*rra! Não tenho nenhuma meia intacta”. Ter 45 pares de sapatos me faz andar sempre calçado. Uma meia para cada um. Nenhuma uma meia sem danos. Argh!
Acho que o problema sou eu. Não cuido das meias. Enquanto o lado de fora estiver bonito, já vale. E foi por causa desse pensamento egoísta que a minha outra grande despedida morreu. Foi embora de verdade.
Era o cachorro mais bonito do mundo. Cor de caramelo depois de um dia inteiro no porta-luvas do carro. Eu era o seu deus. Típico de cachorrinhos. Criei-o desde pequeno. Na verdade, eu era tão pequeno quanto ele, então minha função com ele era nada mais nada menos que colocar a comida e a água. O problema é que nem só disso vivem os bichos. Feridas, carrapatos e doenças foram aparecendo. O sacrifício foi a última opção. Doeu. Acho que mais pela culpa do que pela falta.
Também dói toda vez que olho àquela calça e ainda não estou cabendo na mesma. Sim, homens também têm vaidades. Aquela calça tão bonita, tão Cavalera, tão na moda, que comprei justamente na melhor época da minha faculdade. Meu grupo era tão descolado quanto a calça. Éramos taxados de maconheiros, prostituídos e homossexuais. Era só a forma que o resto da turma achava de nos enquadrar. 90% de nós nem bebia. 95% de nós era virgem. 100% com alergia a fumaça.
Foi com um dos grandes amigos da minha vida que aprendi muito. Aprendi, principalmente, a não negar meu passado e nem fingir ser algo que não sou. “Seja autêntico, seja criativo, seja rico, SEJA!”. Grandes lições jamais esquecidas. Despedida cinematográfica, quase um final de seriado adolescente americano. Foi-se. Foi ganhar a vida na Austrália, fotografando cangurus, nadando junto à Grande Barreira de Corais e realizando seus sonhos.
Por falar em sonhos, já vi que preciso arranjar um lugar maior para a minha coleção de DVDs. “Na minha casa terei maravilhosas prateleiras” – nota mental, só pra constar. Nesse meio tempo, já estou com outra calça mais folgada vestida e a camiseta escolhida.
Check out final no espelho: estou bem. Outras despedidas virão. Mas, por enquanto, tchau espelho. Tchau cama. Tchau quarto. Tchau casa. Estejam aqui quando eu voltar cansado do trabalho. 

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Vá com Deus! [sujeira] de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogadorocomer.blogspot.com.

3 comentários:

  1. Poxa Davi, hj posso dizer que estou sentindo uma inveja boa... seu texto cruza mundos, ideias,pessoas, cheiros. Além de tudo, os detalhes que vai acrescentando ao longo da sua narrativa, que soa quase como um monólogo,fascina a leitura do começo ao fim. Texto cheiroso!
    Ameeeeeeeeeeei!
    Abraços!

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  2. É de dar inveja essa habilidade que o Davi tem de brincar com o texto. Ele passeia com as ideias nos narrando fatos de uma forma livre de padrões, sem, contudo, deixar fugir a coerência e a coesão. Resultado: delícia ler esse menino.
    Davi, vou sentir saudades... Meus sábados não serão os mesmos sem vc! Beijo.

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  3. “Davi, meu urubu expetacular!
    Mal posso acreditar que você não escreva crônicas desde sempre!
    Seu texto é de causar, muita, inveja, mesmo!
    Perfeito na teia que nos envolve.

    Sentirei, muitas saudades de todos os textos!
    Agora, o bom, é poder reler, um a um, com novo olhar, com o tempo a favor...ou quase, já que nunca paramos.

    Valeu demais a experiência, espero ainda conseguir por em pratica o que aprendi com vocês.
    Nunca vou esquecer Davi, que tu encontraste em mim, uma “Naturalista”. E me apresentou a “mim mesma” como escritora desta escola.

    Espero um dia poder contar com as opiniões de vocês, novamente, opiniões que tanto ajudaram no começo, e tanto fizeram falta no fim.

    Beijos.
    Aspirina Klas.”

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