24/08/2011

A vida em duas rodas

Gerchmam- Green bik

Arlete Mendes

Professora

Sim.

Hoje transcendi. Andei de bicicleta. Para ser mais precisa, uma volta inteirinha no parque. Em tentativas anteriores havia desistido no segundo quarteirão. Bicicleta prum lado, menina pro outro. Mas hoje não. Hoje vim, vi e venci.

Engraçado. Muito engraçado aprender coisas da infância beirando a velhice.

Pedia desculpas aos que acidentalmente entrecruzaram meu caminho. Isto me desequilibrava: “É minha primeira vez”, “Desculpe, não tenho experiência nisto!”, “É que nunca aprendi quando criança...” Como se isto diminuísse o impacto das trombadas.

Era uma sem noção.

Consegui a façanha de cair sem estar na bicicleta, me apavorei num cruzamento, não soube administrar passos, bicicleta e travessia. Deixei-a cair e não contente, caí por cima dela. Pedi desculpas à motorista com um gesto de mão e cabeça. Depois pedi desculpas à bicicleta. Ergui a coitada com a dificuldade do susto.

Era mesmo uma sem noção. Sem noção de espaço, sem noção de tempo.

Atrapalhava o trânsito. Sacrilégio. Tremenda falta de noção, sobretudo, nesta cidade. Não há tempo, nem espaço, para atrapalhadas em SP. Peço desculpas, novamente, a motorista. Foi até paciente.

Só sei que deste evento, de histórico, teve até foto. Bom partilhar a vida! Claro, com direito a pose imponente, sem vestígios do medo. Medo o quê?! Não cabia, mas alegria...

Cara, sem noção ou não. Como é que me privei disto por tanto tempo? Foi assim, olha, cerrei os olhos (como se avistasse uma verdade há tempos escondida). Eu vento. Eu livre. Eu veloz. Ops, não tanto ainda. Cautela! Estamos aprendendo. Dado um ponto, já não estava nem aí para as quedas. Nem aí para as dores. Pedalava. Pedalava o mais rápido que minha força e coragem permitiam.

O sol. O vento. O horizonte. Um coração. Batíamos, enfim, uníssonos.

Pulsava ali toda uma vida em cada instante de pedalada.

Voava.


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5 comentários:

  1. A espontaneidade é evidente no seu texto. Transparente diante das emoções mais simples como a de andar de bicicleta, aventura esta ainda distante de mim... o que representa uma pena! Emoção a flor da pele é o que vc transmite hj. Isso é vida. O coração pulsa na crônica maravilhosa! Grande bj com gosto de saudade...
    Regiane,

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  2. “Arlete! Não acredito?
    Isto é fato ou é boato?
    É crônica cotidiana ou é conto fantasioso?
    Juraaaaaaaa que uma das ASS vai encerrar nosso ciclo semestral contando que aprendeu a andar de bicicleta???
    E contando deste jeito tão seu, tão poético, tão lindo, que transmite tanto em poucas linhas, que já me faz querer cada uma das dores no corpo que as quedas trarão...!
    Texto lindo, beijos, mande noticias.
    Aspirina Klas”

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Vamos gente, com ou sem imagens do Gerchmam,
    temos que continuar pedalando, guiados pela conciência, mesmo com gesto de criança...

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  5. Identifiquei-me muito com o texto...
    também aprendi a andar de bicicleta depois de velho,
    e depois de velho...
    tudo se torna difícil.
    mas aí o bom da coisa...
    uma lição a aprender.
    nunca é tarde para tudo
    que se quiser aprender.

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