13/08/2011

Virgindade política


Invenção coletiva - René Magritte


Publicitário

        Não sou da política. Nem falo, nem penso e, cá entre nós, só voto por obrigação. Pode parecer infantil não me preocupar com o futuro do Brasil, mas fico na parte egoísta da população: enquanto favorecer meus interesses, é pra lá que vai meu voto. Pelo menos eu tenho a decência de afirmar isso. Não saio por ai falando sobre tal assunto, por um simples motivo: não sei. Nunca me interessei. E acho difícil criar um interesse do nada. É. Virgem político.
        Já ouvi um psicólogo dizer (e corroborar com exemplos próximos e convincentes), que nossa personalidade é formada na infância. Daí nas minhas viagens sem maconha, acabei fazendo conexões e descobri que não gosto do assunto título do texto por causa de traumas emocionais na infância. E não. Nenhum político abusou sexualmente de mim, só para deixar BEM clara a metáfora do título desta singela crônica.
        Aqui nessas bandas do Rio Grande do Norte, tudo é controlado pelas mulheres. Sinceramente, acho o MÁXIMO. Uma das poucas coisas políticas que tenho prazer em afirmar. Em uma época não tão remota assim, a música vigente era de uma tal de Rosa Vermelha contra uma outra senhorinha com sobrenome terminando no aumentativo. Era a briga dessas grandes mulheres. E sem direito a puxão de cabelo.
        De um lado meus coleguinhas da sala, de uma longínqua 2ª série, entoando ferozmente o hino da aumentativa. Do outro lado, a rosa rouge não parava de soar um minuto. E eu no meio. Sem entender qual a razão dos meus pequenos amigos estarem tão alterados por alguém que eles sequer conheciam. Ok, tenho que admitir que eu conhecia pessoalmente uma delas. Para minha surpresa, era uma pessoa normal. Duas pernas, dois braços. Só a imponência que sempre existiu. Fora isso, até todos os dentes ela tinha na boca.
        Era adesivo da rosa nos cadernos, bottons da aumentativa nas mochilas. Será que eles ganhavam algo com isso? Dinheiro pra comprar o salsichão e o sorvete de flocos na hora do recreio? Hm... Parecia valer à pena fazer aquela boca de urna longe das urnas. Levando para os termos de hoje, seria crime. Ainda bem que éramos todos crianças brincando com uma leve noção do que seria partidarismo.
        O ponto é que nunca consegui corromper minha inocência com politicagens. Eu tinha minha favorita, claro. E ela estava no mesmo patamar da Mara Maravilha, da Angélica e até da Xuxa. Mas eu não deixava ninguém saber. E se os valentões se juntassem para me bater? Não. Paz e amor é a melhor escolha.  Resumindo, em uma viagem cronológica mais rápida, uma delas venceu a eleição. A outra venceu depois. E assim foram revezando, incluindo muitas “membras” da família.
        Fui crescendo e comecei a entender o comportamento dos pequenos canibais políticos no passado: reflexo familiar. Pessoas de cidade pequena realmente brigam por política. A geração passada influenciava os filhos de uma maneira absurda. Alguns escaparam. Outros não. Tem deles que hoje são politiquinhos. Será que roubam? Será que são honestos como eu conheci? Prefiro continuar na minha profissão de Publicitário. Dá mais dor de cabeça, mas sei que não vou precisar lamber o ** de ninguém pra receber meu salário no final do mês. 
         
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Um comentário:

  1. “Davi, meu urubuzinho rei!

    Comentar seu texto é complicado para mim.



    A compreensão de suas palavras calam fundo, nesta parasita mente pensante, sudestina!

    Eu te compreendo em Gênero, número e Grau.



    Se tu és virgem político eu sou uma vitima de estupro político. Mais que isto fui estuprada por uma política pedófila.(calma gente, é só para parafrasear o texto do Davi)



    Entendo, pouquinho, do negócio, mas fujo mais que o diabo foge da cruz.



    O José de Paiva Rebouças sabe.

    Me cutuca a vontade de falar a respeito, mas só escrever, seria hipócrita de minha parte.

    Sou egoísta mas não hipócrita.



    Busco um voto consciente,nada além disto. Vidas foram ceifadas para que eu, mulher, tivesse o direito ao voto. Que seja então um voto conciente.



    Quando ao mais, amigo, sou como você, prefiro ser uma poeta errante que finge ser secretária para ganhar o pão, prefiro honrar meu pão e com isto fazer do universo do meu lar, parte de uma sociedade que eu desejo transformar.

    Igualdade, solidariedade e justiça.

    Ser justo as vezes é se calar.”
    Klas

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