26/06/2011

O beijo


Beijo - Toulouse-Lautrec



”Quem não beija é como um morto”.
Johann Goethe

         Foi com um solene beijo que Judas, o discípulo intelectual dentre os 12, entregou seu Mestre à sanha dos inimigos. Na Idade Média selavam-se acordos com um beijo, nada mais emblemático do que um selo na boca. Os jogadores de futebol, os menos preconceituosos, beijam-se uns aos outros na comemoração do gol, o supremo momento, quase um orgasmo pela vitória iminente.
         Ele, o beijo, há 1.500 anos já era motivo de fofocas na Índia, pois lá estão os registros, ainda, nas paredes do templo Khajuraho, mencionando pessoas que se beijavam. O que não se pode provar é se os beijoqueiros praticavam a modalidade que todos nós apreciamos, dentro do templo ou noutro local. Em sendo mexericos, supõem-se que tais leves sucções terem acontecido dentro do lugar de respeito!
         Escreveu Julie Enfield, o gostoso livro A História Íntima do Beijo. Há relatos, meio científicos, não completamente provados, de que o beijo está relacionado com a antropologia. No começo, em plena era das cavernas, a mãe mastigava o alimento para dá-lo aos filhos, o mesmo que certos animais fazem até os dias de hoje. Tentam, pelo fascínio que o beijo exerce em cada ser humano, mostrar de alguma maneira, a origem do ósculo – que em certas ocasiões é sinal de cumprimento e boa vontade, noutros, porém, significa carinho, afeto, paixão, amor no contato com os lábios, e, noutros momentos menos prazerosos, até traição.
         Mas será que não estaria o beijo, ligado tão somente ao prazer tátil? Tem uns aficionados pelo prazer do beijo que sustentam, num esforço supremo de buscar na História a natureza e o sentido do dito cujo, que chegam a afirmar que, antes do beijo, já se fazia sexo. Depois foi um ingrediente a mais nessa sensação e experiência natural entre os animais, racionais ou não.
         O certo é que os esquimós não usam o beijo para tais finalidades acima mencionadas. Preferem o toque com o nariz, talvez tenham herdado dos antigos egípcios, ou vice-versa. É deveras curioso na hora da cópula trocar leves narigadas, também noutros momentos como adeus, até outro dia, ou na despedida e nos cumprimentos de praxe.
         Chegamos, então, ao beijo na boca. Modernidade ou costume que vem de eras remotas, evoluindo com o tempo. A invenção de se beijar na boca, atribui alguns estudiosos, a certos macacos que se mordiam em ritos pré-sexuais. Será? Não duvido nada, pois há casais apaixonados que se mordem na hora do beijo. Às vezes, até mingua sangue dos lábios...
         Portanto, pode ser que o significado do beija tenha mudado ao longo dos anos, mas o fato é que ele existe desde antes da própria humanidade, o que se pode deduzir pela observação de alguns antropólogos e de outros pesquisadores. Isso é correto? Não estou aqui para duvidar, mas que a cada dia o beijo faz cada vez mais parte do prazer entre as pessoas, isso ninguém pode negar. O beijo significa tudo: desde um “estou apaixonado”; “eu te amo” até a “traidor(a)”, seja ele aplicado na boca ou em qualquer outra parte do corpo.

[AUTOR CONVIDADO] Willian Lopes Guerra é de Apodi - RN. Advogado; escritor e ensaísta.

Um comentário:

  1. Relatos históricos e observações particulares fazem do seu texto uma construção sólida e, indiscutivelmente, inteligente. Ainda tenho muito que caminhar para escrever com essa qualidade.
    Abraços!
    Regiane,

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