Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Klas

A Negra Paz, dele

Imagem
Eliana Klas Secretaria Ele só quer a paz, que perdeu lá atrás... Lembra-se bem dela, do gosto, do jeito, do seu leve andar. Sabe que a paz tinha jeito de menina, olhar de mulher. A paz era tão feliz, saltitante! A paz era esvoaçante! Ah, quantas saudades, ele tem dela! A paz, de quem sente falta, se foi, deixou só um bilhetinho, contando os motivos. Motivos que prefere esquecer. Merece mais, lembrar-se dela, do que dos motivos, que a fez partir. Ah, amigos, ele sente dores, pela falta que ela lhe faz!!! Portanto, não lhe perguntem, do que ela partiu! Mas, ouçam atentos, tudo que falo sobre ela. A paz era quieta. Sobretudo, e antes de tudo, quieta. Entendam-me: o silêncio da paz, não era um silêncio qualquer! Não! O silêncio da paz era cheio de sons. O silêncio da paz tinha acordes variados. Lembro-me, do som dela, que era o som dos violões, os sons do vento, o som do mar. A paz tinha, em seu silêncio, as vozes dos amigos e das crianças. ...

Minha amada bruxa

Imagem
Théodore Géricault Eliana Klas Secretária Os cronistas desta semana, aqui no A&U, cutucaram minha velha veia politizada, mas eu, mais uma vez, a ignorei. Não por desmerecê-la. Exatamente por reconhecer-lhe a força, mas principalmente, por ter consciência de que palavras sem ação são palavras mortas. Para não ceder à tentação e falar de política, revi o caminho de meus amigos cronistas e percebi que já era hora de contar sobre a figura medonha de minha rua, em minha infância. As minhas amigas aspirinas, contaram aqui, histórias de seus loucos e de seus medos de infância. Eu também preciso contar a minha. É difícil eu conseguir, ordenar os fatos, os medos e os cheiros, trago poucas lembranças dela. Ou, talvez, o velho medo disfarçado, me impeça de contar os detalhes. De tanto que o medo dela me consumiu, decidi afogá-la, e torço até hoje para que ninguém encontre seu corpo. Vou tentar ordenar os pensamentos com as lembranças que trago dela. Lembro dela brava gritando, mui...

Perdendo o encanto

Imagem
Noiva - Thais Albuquerque Eliana Klas Secretária Nesta época do ano não era preciso dizer que se lembrava dela, além de todo o ano. E lembrar-se dela era necessariamente se sentir o último dos homens. Ela adorava as festas de fim de ano. As lojas enfeitadas, o ‘burburinho’ no ar, os presentes, as festas. Pouco lhe importava se tudo era comércio, se o Natal tinha algum significado espiritual, ou não. A ela importava a beleza, o estético, o efêmero. Ele se arrastava pelas ruas com a alma consumida. O cheiro dela estava no cheiro do panetone, no cheiro dos assados, das frutas cítricas. O som do riso dela era lembrado no barulho das castanhas sendo quebradas. Esta época fazia-o lembrar do presente que lhe comprara, na noite que ela partiu. Naquela noite ele comprara, enfim, o anel que ela tanto pedia. Juntara dinheiro os últimos meses e, finalmente, na caixinha de veludo vermelho estava o pequeno tesouro. Ele iria pedir-lhe em casamento naquela noite. Noite de Natal. ...

Teu outono em mim

Imagem
Outono 63 - Matilde Marçal Eliana Klas Secretária O outono desperta minhas últimas vontades. Vontade do seu toque na nuca. Seu toque em meu braço. Seu toque em meu rosto. Vontade do seu toque nas partes expostas de minha pele, nas partes que podes tocar. Nada posso fazer além de debruçar e sentir este cheiro de folha dourada. Sim, o outono tem cheiro de folha, folha molhada, marrom, soltando do galho. Você tem o cheiro desta folha. Teu cheiro me dá fome, cheiro de desejo. O teu cheiro antecede o inverno onde todos os cheiros se perdem. O teu cheiro é assim: cheiro de antes do fim, cheiro da última vontade, cheiro do último desejo, desejo que ninguém precisa saber, que ninguém vai ver. O outono é teu perfume em mim. Teu cheiro desce pelo meu corpo e amolece minhas pernas. Sua boca longe da minha desenha o contorno do meu corpo... Teu toque, não vem. Acaricia minha pele morna, sua saliva molha minhas curvas. Teu cheiro de outono atrapalha minha primavera. Faz-me não querer a prim...