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A voz do silêncio

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Giorgio de Chirico, Donna bionda di spalle, 1930 circa Rokatia Kleania Professora Por quem chamar quando é sozinho que se quer estar? O que falar quando nada se tem a dizer? Que canção tocar quando a melodia se nega a soar? O que recitar quando os versos brancamente se soltam da estrofe? Aonde ir quando a alma se encontra perdida em pleno deserto de emoções? Que palavras usar para proclamar o que não se sabe? Como expor pensamentos que navegam sem destino por mares de incertezas? De que maneira se pode dizer o que não se sente? Em qual dicionário moram os verbetes que traduzem o ocaso de um coração vazio? Para que revelar a amarelada fotografia de sentimentos passados? O que ler nas mãos que nos ofertam o futuro? Para que transpor a fortaleza silenciosa da solidão? Por que não apenas ouvir o grito ensurdecedor do silêncio? Como se desenha os sons que silenciam a surdez do calar? Por que proclamar nossos desejos se cada um ouve apenas o que quer? Que respostas oferecer a tantas pe...

Esquecida

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Eduardo Laner De olhar perdido refletido no espelho, delineia os grandes olhos verdes de negro no meio de muitos batons, o rosa choque é o escolhido. Veste os jeans justos e o top de alças com um decote generoso. Calça os saltos altos tirados da sapateira da mãe. Olha-se ao espelho uma vez mais, pega na mochila com um maço de tabaco a preenchê-la. Nos bolsos o isqueiro com flores brancas que tanto a encantou acompanha-a sempre. No hall da entrada ouve a mãe gritar da cozinha com o irmão de três anos, parece que deixou cair comida para o chão, mal sabe agarrar num garfo, “pobrezinho”, pensou ela. Sem olhar para trás, fechou a porta atrás de si, desce cada degrau com algum sacrifício, pensou ser mais fácil andar com os sapatos elegantes, fazia-lhe parecer mais alta. Sempre foi gozada pela sua altura, ou ausência dela. De cabeça erguida e coração ferido desce a rua em direção à escola, planeia em segundos o percurso mais fácil a pisar. Dentro dos portões, o porteiro abana a cabeça,...

Insone ausência

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Nos braços de Morfeu - William Reynolds-Stephens Rokatia Kleania Professora É tarde. Meia noite em ponto. Hora de deitar. Amanhã será um dia daqueles, repleto de compromissos, filas quilométricas no banco, patrão chato pegando no pé. Vou dormir. Como todos os dias, realizo meu ritual antes do tão esperado repouso noturno. Tomo um bom banho. Preparo o leito. Vou até a cozinha, pego um copo d’água e coloco ao lado da cama, hábito herdado de um antigo relacionamento. Programo o despertador para me acordar às seis da manhã. Faço minha oração noturna. E pronto! Estou preparada para cair no sono. Deito-me. Por um bom tempo, fico a me revolver na cama, como se de algo sentisse falta. Procuro me acomodar confortavelmente em meu aconchegante berço. Quando finalmente encontro uma posição confortável, eis que percebo: você não está ali. Tomo um susto. Jurava que estava comigo! Meu Deus! Cadê você? Atarantada com tanto trabalho sequer havia percebido sua ausência. Passeio meus olhos pelo qu...

Amor meridional

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Girl on the Couch - Alberto Sughi José de Paiva Rebouças Cronista Meridiana se apaixonou pelo cara só porque ele se ofereceu para ajudá-la a carregar as compras. Não era sua intenção se apaixonar, mas quando as mãos precisam de enlace as intenções viram pretensão. Porém, se ela pretendeu a felicidade, descobriu que, além de abstrato, esse sentimento anda mucumunado com o desengano e logo se acompanha ao prefixo in. Assim como se apaixonou, desapaixonou no primeiro desacordo, dando origens a outras palavras carregadas de prefixos de negação e a outras ocasiões em que, se negar ou negar o outro, é o único remédio para as fugas de si mesmo. Meridiana se apaixonou de novo só porque o cara tocou a ponta de seus cabelos e lhe ofereceu um sorriso descarregado de receio. Ainda que fosse artimanha da sedução masculinha era um presente. Mimese. Mas dessa vez, Meridiana pensou direito e, mesmo sabendo que como toda fêmea conquistada não podia fugir à exibição, apaixonou-se e desapaixonou-s...