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Memórias gramaticais

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Salvador Dali O dia nasceu em substantivo próprio. Antes do meio-dia, fez-se comum. Substantivamente e sintaticamente comum. Retirei-me, então, para o adjetivo do meu quintal; e flagrei-me a plantar rimas na cova dos advérbios: de tempo, modo, causa e lugar. Quando o sol quebrou no verbo da serra, mexi nos meus predicados e, suprema conjunção, propalei, aos quatro ventos, as tralhas poéticas, aposto e sintagmas, das memórias gramaticais. [ CONVIDADO ] Clauder Arcanjo é poeta e escritor, autor de Licânia, Lápis nas Veias e Novenário de Espinhos.

Como é chato ser gostosa!

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“Maria Lucia era uma menina linda e o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu...” Até mesmo o personagem durão da música da Legião Urbana se rendeu aos encantos de uma bela mulher. E se repararmos bem na letra dessa música, parece que a beleza era tudo que a tal Maria Lucia tinha. E precisa de mais alguma coisa? Para muita gente a beleza excessiva ou a busca por ela torna-se um objetivo ou uma missão de vida! Particularmente, já vi muita gente bonita, assim como já vi muita gente feia; Já vi algumas pessoas lindas, vi algumas muitas pessoas horríveis... Faz parte do nosso dia a dia. Mas há alguns dias conheci uma garota que é unanimidade entre os mortais. Eu mesma admito ter ficado bestificada com sua beleza. Não fui a única. A menina é realmente um encanto. Desde que a conheci percebi que todos os homens ficam loucos quando a vêm, até os gays, até os gays mais passivos já vieram me dizer que por ela “trairiam a causa” uma vez ou outra. E até algumas mulheres mais “fora de susp...

Cheiro, você

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Seu sangue tinto é vinho, ferroso cheiro da lâmina Engoli cem sílabas do seu hálito sem mastigar o perfume de uma vogal Cheirei sua respiração enquanto dormia, deliro a cada resfolegar Oleosos olhos castanhos, cabelos de cachos inebriantes O vento que beija seus caracóis entorpece e engana meus sentidos Seus pelos mais novos ainda têm o cheiro da sua derme Você é a última virgem, a essência, eu, um assassino Vou mais longe e tento cheirar suas entranhas para descobrir a fórmula do amor. [ CONVIDADO ] Aníbal Mascarenhas-Filho

E aí?

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E aí, vai? Pra Onde? Você Sabe... O Quê? Não se finja de Burro! Mas eu não sei do que você está falando. Agente já veio até aqui pra você amarelar? Eu não sei... Depois de tudo o que eu fiz você vai desistir? Ainda não chegou a hora. Mas você tem que decidir logo. Não me apresse eu não funciono sobre pressão. Mas é só ir uma vez. Só isso? E se acontecer alguma coisa comigo. Não vai acontecer nada. Mas a Marcela não ficou legal. Ela é fresca, não gosta de coisas mais fortes. Mas como foi sua primeira vez? Nada de mais... Eu já estava esperando. Então porque que eu tenho que experimentar se não é nada demais? Porque você é o único do grupo que ainda não foi. Mas... Fim de papo que já chegou nossa vez. Mas eu não quero ir na montanha russa! VOCÊ VAI!!! Ou eu me jogo lá de cima. Tá bom, eu vou, mas deixa de fazer drama. [CONVIDADO] Yuriloia@hotmail.com

Peito de aço

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De tão frágil que fora a vida inteira, estava determinada a proteger o restinho de si que ainda amava. E esforçou-se até achar uma armadura que lhe caísse bem. Um casco de ferro para envolver seu coração de carne que já tinha sangrado várias vezes, e que agora ela queria curar dos golpes. Um casco de aço envigado pra bloquear os palpites fora de hora. Um cofre pesado, pra guardar os segredos e medos, sem chances de levitar. Sob medida, sem alardes. Até que se realizou por achar uma armadura do seu calibre. Do tamanho ideal para envolver um coração que ainda bate. Do tipo que sendo fraco, dá sinais de que há vida pra proteger. E justo ela, que costumava se culpar pelas promessas não cumpridas, respirava com alívio por não ter entregado o coração que prometera. Por um triz. Perdeu a graça e revestiu-se de ferro. E acaçapou os trejeitos de menina leve. Fez-se de forte, suportando o volume da indumentária que se somava ao peso que acumulava em teus ombros. E agora, com a nova vestimenta,...

O nariz de Luís e a barba do cabra

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Cabeça de pedra de homem com barba do Palácio Al-Hir Al-Gharbi Recentemente, em um curso de capacitação, me vi diante de um debate um tanto polêmico, pelo menos para mim. Um daqueles assuntos sobre os quais não se chega a um denominador comum, como futebol, política ou religião. De repente, durante uma aula do curso de relações interpessoais ofertado pela instituição onde trabalho, o professor abordou o aspecto “aparência” como fundamentalmente importante para uma boa relação e uma comunicação eficiente no ambiente de trabalho. Impecável nos trajes e no penteado, ele foi categórico no conceito e deu exemplos de como a “má aparência” pode influenciar negativamente nos objetivos profissionais. Eu, que estava razoavelmente barbeado, cabelo mais ou menos e a roupa até que não estava das mais amassadas, acompanhei, a contragosto, os meus colegas que nem ensaiaram uma discussão, quiçá uma contradição em defesa dos menos preocupados com a aparência. Pensei que tinha fugido de uma exposi...

Desilusão

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Se Um Dia Fui sonhador, hoje entretanto, Aguardo Somente o sono. Ellen Dias Poeta

O terrível Malamém

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Oswaldo Guayasamín Dias atrás eu estava com alguns amigos falando das reminiscências, dos medos de criança, das figuras folclóricas que habitavam o nosso subconsciente. Falávamos das figuras do bicho-papão, do papa-figo e de outras personagens que eram utilizadas pelos nossos pais para nos pôr medo, no sentido de associar esses monstros fictícios à contradição ou desobediência em relação à ordem ou conselhos que nos davam. Falávamos principalmente da figura do papa-figo (corruptela de papa-fígado), que é uma das maiores lendas urbanas brasileiras. Cada cidade elegia o seu papa-figo. Segundo a lenda, o papa-figo era um sujeito estranho, rico, que sofria de uma doença rara e sem cura. Alguns sintomas dessa doença seriam o crescimento anormal de suas orelhas ou o corpo leproso e que para aliviar os sintomas dessa terrível doença ou maldição, precisavam se alimentar do fígado de uma criança. Em Natal, a cidade em que eu nasci e onde vivi a minha infância e adolescência, o papa-figo...

“Carnaval, carnaval, eu fico triste quando chega o carnaval”.

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Carnaval - Olivia Castro Cranwell Foi-se o tempo em que as marchinhas animavam o carnaval. Tempos que somente poucos guerreiros seguidores podem dizer que viveram. Hoje, dependendo da região que você vive, as pessoas escutam apenas um tipo de música o ano inteiro. Já não basta ouvir forró o tempo todo de dezembro à dezembro e ainda assim tem o-não-sei-o-que-das-quantas elétrico? É tanta coisa elétrica que às vezes os aparelhos de som do palco pifam. Não estou criticando ninguém por gostar de um determinado estilo de música, é um direito seu escolher, mas será que não cansa? Bem, lembro-me dos tempos de moleque quando ficávamos nos perguntado qual seria a apresentação de determinada turma de carnaval para ganhar o prêmio que era oferecido a turma mais animada (na época referida existia um concurso na minha cidade todo carnaval. Já faz tanto tempo desde o último que nem lembro da data). Difícil não se lembrar do pé de pano, camaleões, estroinice, aconchego, queima raparigual, matra...

E MENTIR, O QUE É?

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Mentira - O Serrano “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo” O axioma que diz que “a mentira tem pernas curtas”, é muito antigo. Ainda não descobri de onde veio. Pode ser que nem descubra, sequer iniciei as pesquisas para tal finalidade. Mas o grande poeta Fernando Pessoa, que reputo um dos maiores de todo o mundo, e com certeza o mais destacado da língua portuguesa, deliciou-nos com uma poesia extraordinária, intitulada “Poema em Linha Reta”. Acima apresento os dois primeiros versos que mais parecem assim como aquele durão que, o que tem para dizer, diz na cara. Desmascara o mentiroso sem meias palavras. As novelas da Globo, por exemplo (e das demais que apresentam esse tipo de dramalhão alienante, também) são escritas em cima de mentiras. Para que? Para, ao final, o bem vencer o que se lhe opõe. Personifica a mentira, lhe dá ares de verdade, machuca, o sofrimento é a tônica e oferece-se o fel para, depois, vir à redenção, a...

Quem foi Mefibosete?

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“Se o mundo vos odeia, sabeis que  me odiou antes de odiar a vós” – Jesus .                 Muitos ainda não são aceitos na sociedade, ou como parte de um grupo somente por causa da cor da pele, pela nacionalidade, a maneira de falar, de se vestir, ou portador de algum defeito físico, opção sexual, IDADE, amor epidérmico... E por aí vai o rosário de situações em que a humilhação é a tônica, não pela ação de todos, mas de uma maioria considerável, infelizmente!             Talvez, em alguma situação, todos nós já se sentiu excluído, dependendo o momento, do grau de significado a que estivesse tentando ser um incluído. E por isso, hoje, saindo mais dos temas que habitualmente elejo para comentar, opinar, enfim, trago à baila a chaga espúria da exclusão no seio social vigente, seja aqui ou alhures, sempre acontecendo a canalhice de alguns tentando menosprezar o seu...

Esquecida

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Eduardo Laner De olhar perdido refletido no espelho, delineia os grandes olhos verdes de negro no meio de muitos batons, o rosa choque é o escolhido. Veste os jeans justos e o top de alças com um decote generoso. Calça os saltos altos tirados da sapateira da mãe. Olha-se ao espelho uma vez mais, pega na mochila com um maço de tabaco a preenchê-la. Nos bolsos o isqueiro com flores brancas que tanto a encantou acompanha-a sempre. No hall da entrada ouve a mãe gritar da cozinha com o irmão de três anos, parece que deixou cair comida para o chão, mal sabe agarrar num garfo, “pobrezinho”, pensou ela. Sem olhar para trás, fechou a porta atrás de si, desce cada degrau com algum sacrifício, pensou ser mais fácil andar com os sapatos elegantes, fazia-lhe parecer mais alta. Sempre foi gozada pela sua altura, ou ausência dela. De cabeça erguida e coração ferido desce a rua em direção à escola, planeia em segundos o percurso mais fácil a pisar. Dentro dos portões, o porteiro abana a cabeça,...