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Onde é Brasil?

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Estampa BR - Beleza Lilika José de Paiva Rebouças Cronista Não comungo dessa bobagem de que somos um continente. Somo um pequeno país que tem uma vasta extensão de terra que, como já disse – para o meu descontentamento – Lya Luft, se limita ao centro pelo próprio povo. Como hoje estou desprovido do meu típico nacionalismo, gostaria de questionar algumas posições, físico-geográficas e comportamentais, deste país tão incomum, segundo os outros.         Quem somos então? Europeus nunca fomos, estadunidenses, por mais que nos esforcemos e copiemos, nunca seremos, mas também não somos latino-americanos. O Brasil é o país mais estranho deste continente. É só mirar a diferença de reação dos povos dos países de língua castelhana do sul do mundo para perceber que, por pior que seja suas situações, quando o calo aperta, o pinto pia. É panelaço na certa! Nós mesmos nos referimos a América do Sul como sendo um lugar distante.     ...

A escolha de Sofia

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Hospital Body Awareness - Maria Lassing José de Paiva Rebouças Cronista Sofia é a personagem polonesa de um filme estadunidense que, presa durante a Segunda Guerra Mundial, é forçada a escolher qual dos dois filhos deveria morrer para que o outro sobrevivesse. Mas ela poderia ser uma médica ou enfermeira de um hospital do Rio Grande do Norte obrigada a escolher qual paciente salvar em detrimento do outro. A comparação com a personagem foi feita pelo próprio secretário estadual de Saúde, Domício Arruda, na última semana, referindo-se à falta de estrutura do Hospital Walfredo Gurgel, em Natal. A falta de leitos e médico é tão séria naquela unidade hospitalar que estão escolhendo salvar aqueles que apresentam maiores chances de ficarem vivos. A situação é absurda, mas não é novidade. Não se trata de Domício Arruda, de Rosalba ou do RN. A situação caótica da saúde é nacional e, dia desses, estava nas telas da TV de Sergipe, Alagoas, São Paulo, Rio e até do Sul, onde tudo parece p...

Quando os filhos nos escapam

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O meu nascimento_Frida Kahlo José de Paiva Rebouças Cronista         Da morte de Amy Winehouse só ficou, para mim, a imagem chorosa de uma mãe derrotada. Uma cara lembrava a da cantora, mas ao invés do desdém jovial marcado pelo uso frequente dos vários tipos de drogas, as marcas da impotência. De quem lutou uma vida inteira para ter de volta a criança que viu correndo descalça, imitando os ídolos da infância com o estilo da avó.         Esse retrato é mais comum do que imaginamos e se repete com muita frequência, deixando famílias vazias e fãs órfãos. Kurt Cobain, Elvis Presley, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Cazuza, Raulzito, são apenas alguns dos vários nomes que continuam desaparecendo por mortes prematuras ou fins de carreiras drásticos causados pela intransigência. Mas eles são apenas a ponta do iceberg por serem ídolos. Todos os dias, casos assim nos tomam de susto. Crianças que cresceram cheias de proteção...

Amanda amostrada

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José de Paiva Rebouças Cronistas Ouvi muita gente dizendo que a professora Amanda Gurgel só estava se aproveitando para aparecer, pensando nas próximas eleições. Amanda é aquela baixinha atrevida que no início da já finda greve dos professores da rede estadual de ensino, chamou a atenção do Brasil e do mundo ao anunciar os três dígitos do seu salário de professora (9-5-0). Ela se impôs diante da secretária de educação e dos senhores deputados quando da ausência de cuidados com o que deveria ser o mais importante serviço público do país – como é para outros. Depois disso, ganhou as telas das televisões e dos computadores e, também, a antipatia dos acostumados com a mesmice primária deste país. É que essa gente é imediatista. Na semana em que o vídeo de Amanda foi divulgado, todos se encheram de potiguarismo e brasilidade, mas com o tempo e com o Faustão, começaram a vê-la como sujeito político. Porque aqui, neste país, sujeito político é aquele que quer ser candidato para mamar nas t...

O demônio das ruas

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Estudo da mendiga - Almeida Junior  - 1899 José de Paiva Rebouças Cronista Rastejando sobre escama das ruas, sob as sombras dos prédios que brotam do chão, uma nesga de gente com sotaque azul afasta a cidade de seus guardiões. Com licença, você pode me ajudar...? Não é um diálogo, é só um sopro do resto do clamor que ainda lhe resta. O olhar moribundo revela a única expressão que sobrou do seu arcabouço. Sua voz roufenha alude um solilóquio indecifrável. Já não há mais contato e toda atenção recebida é o desprezo de uma moeda pequena. Um sinal para manter a distância. Não é pelo veneno que carrega nas veias e faz suicidar os desvairados, é pela semelhança. Zumbi – demônio das ruas que atarraca os mortais com sua súplica fatigante e intermitente: Com licença, você pode me ajudar...? Seus olhos têm espelhos que afastam outros rostos e sua boca vazia a cadência dos famintos. Está em todo lugar e é chave para a necessidade aterradora do peito humano de definir o outro, estereoti...

Do tempo e do amor

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A persistência da Memória_1931_Salvador Dali José de Paiva Rebouças Cronista Eu olho para dona Caboquinha e pergunto qual será o meu futuro. Se terei a chance de também passar dos 80 com a mesma certeza de que a vida me deu a liberdade de ser feliz naquilo que fui e fiz. De ter tantas lembranças boas e, sobretudo, um grande amor, daqueles que faz chorar cada vez que se conta, mesmo se repetindo. De ter idade como uma ação natural do tempo, com mais vantagens do que medo. Por isso, penso e procuro, lá no começo da primeira estrada, o caminho que deixei de pegar e como faço para retomá-lo. Porque viver mais de oito décadas não é envelhecer, mas cumprir uma trajetória que nos foi permitida por Deus ou qualquer outra força da natureza. Envelhecemos quando pensamos muito e, talvez, “a vida mais doce é não pensar em nada”. Estamos sempre procurando algo que não nos pertenceu sem ao menos olhar aquilo que temos e, quando menos esperamos, já fomos ou estamos para ir. Confesso que a vida...

A república de Rodolfo

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Rodolfo Fernandes no Chuva de Bala no País de Mossoró - George Vale José de Paiva Rebouças Cronista Dona Fátima, dona Fátima! O Rodolfo Fernandes morreu mesmo? Não, é que fiquei pensando... A senhora sabe que penso muito, embora pensar seja, como diz o Arnaldo, “um ato proibitivo fora de internet”. Mas eu pensei em perguntar a ele se não queria voltar a ser prefeito, sabe? Não é questão de gênero, mas de sobrevivência mesmo. Assim, porque, se ele botou os cangaceiros pra correr, como vi ontem, lá de frente a igreja, a gente podia fazer tudo de novo. Fiquei muito emocionada com o poder de mobilização daquele homem. Se agente se unisse, dona Fátima, talvez nem fosse preciso fazer trincheiras. Sabe o que é? É que estou cansada de me esconder: muro, portão, cerca elétrica, sensor, grades, pega-ladrão, fechadura, ferrolho, trava elétrica, alarme, seguro obrigatório, seguro privado, seguro de vida, seguro de morte, tudo precisa ser assegurado e no fim... Concordo com Marx, um dos ami...

Marcha da maconha

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Proibidoporque José de Paiva Rebouças Cronista Oi dona Fátima, hoje eu não quero cortar nem pintar. A senhora pode só alisar? Não, não é alisamento progressivo, só alisar com a escova, eu pago como se fosse um alisamento progressivo. Só quero conversar. O Arnaldo viajou de novo e não gosto quando fico sozinha. Não gosto de não ter com quem conversar. A senhora sabe, mulher gosta mais de falar do que de ganhar presente. Quer dizer, de ganhar presente e falar... Ai, eu morro de rir de mim mesma. Eu rio de muitas coisas, sabe, e não entendo a maioria delas. Quer ver? Me explique, dona Fátima, por que o povo é bom para defender coisas que, como diz o Arnaldo, não são “prioritárias”? A senhora viu essa tal de marcha da maconha? Minha nossa! Nossos meninos estudando em escolas caindo aos pedaços, meu carro com o aro amassado por causa dos buracos da rua e um monte de gente defendendo essa tal “descriminalização da maconha”! Até o FHC foi pra televisão defender o comércio da erva... A...