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Olho clínico

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Publicidade Aspirina Arlete Mendes Professora Um dia curiei a ficha médica e foi mais ou menos isto que vi: Rinite e sinusite alérgicas, bruxismo, braquicardia, tireoidismo, hipoglicemia. Faltam dois molares. Estrabismo e astigmatismo leves. Prejuízo nos vasos perfurantes que não se comunicam com os comunicantes. Assimetria acentuada nos pés e no seio. Partos: fórceps e natural. Quando em estado de tristeza profunda ocorre erupção cutânea na região do tronco e do pescoço, alega, portanto, que seu corpo é quem chora. Cicatrizes no abdômen por conta de vaidade exacerbada. Cicatrizes mais espessas, além derme, imperceptíveis ao exame clínico de tão profundas que são. Causa provável: orgulho aflorado. Diagnóstico final: Nem tango argentino dá jeito. Olho clínico de Arlete Mendes é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported . Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com .

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Foi logo quando comecei a trabalhar. A loja era perto de casa. Perto do tipo que dá pra vir almoçar, tirar um cochilo e voltar nas míseras duas horas de intervalo. Ia sempre pelo mesmo caminho. É sempre assim. Quando aprendo uma rota, só sei ir por ali. Centro. Calor. Gente suada, gritando. Olhos azuis. Parei. Quem suou fui eu. E frio. Prossegui meu caminho. Senti o peso dos olhos azuis durante o dia inteiro. Excitei-me só de pensar. De volta. 18 horas. Mesmo caminho. Sem olhos azuis. Uma pena. Novo dia, nova manhã. Vai ver foi um acaso. Um raio não cai duas vezes no mesmo canto. Cai. Cai com força. 40 anos mais ou menos. Queimado do sol. Careca. Olhos azuis. Azuis profundos. Profundos do tipo que a pessoa nem tem noção do poder que eles têm. Uma amiga minha uma vez me disse: “Mulher, não entendo você. Só tem atração por homem pobre. Vai morrer pobre também”. Não tenho culpa. Olhos azuis destroem. Corrompem. Aniquilam. Falo. Não falo. Não sou do tipo que ninguém repara. Tímida, meio...