Postagens

Olho clínico

Imagem
Publicidade Aspirina Arlete Mendes Professora Um dia curiei a ficha médica e foi mais ou menos isto que vi: Rinite e sinusite alérgicas, bruxismo, braquicardia, tireoidismo, hipoglicemia. Faltam dois molares. Estrabismo e astigmatismo leves. Prejuízo nos vasos perfurantes que não se comunicam com os comunicantes. Assimetria acentuada nos pés e no seio. Partos: fórceps e natural. Quando em estado de tristeza profunda ocorre erupção cutânea na região do tronco e do pescoço, alega, portanto, que seu corpo é quem chora. Cicatrizes no abdômen por conta de vaidade exacerbada. Cicatrizes mais espessas, além derme, imperceptíveis ao exame clínico de tão profundas que são. Causa provável: orgulho aflorado. Diagnóstico final: Nem tango argentino dá jeito. Olho clínico de Arlete Mendes é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported . Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com .

Pedaços

Imagem
Dalí- premonição Regiane S. Cabral de Paiva Professora Na calada da noite... os gritos. Não há motivos concretos, simplesmente, se digladiam. Como feras, expõem suas garras e estraçalham a epiderme que lhes cobrem os ossos. Pelo chão, as poças de sangue afogam os membros espalhados pela casa. As partes chagadas vão se agrupando e seus pedaços se confundem em um só. No meio da batalha, ainda lhes restam forças para cravar as unhas no peito do adversário e, espantosamente, cortam, em dois, o corpo que antes era prazer. Com o resto de ar que lhes sobra, devoram o coração um do outro e cospem, com amargor, o que sobrou dele. Depois da luta, sofreiam a fúria. Já cansados, começam a juntar suas peles, em estilhaços, e se lambuzam, embebidos de dor, no encarnado derramado pelos cantos que abrigam a sua insanidade... Pedaços de Regiane S. Cabral de Paiva é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported . Based on...

Quando me deito

Imagem
Moa - Egon Schiele José de Paiva Rebouças Cronista         Quando cheguei aqui, nem tinha 17 anos e pouco sabia da função. Devo a dona Milonga os cuidados e o trato para que desenvolvesse bem meus dotes, dados a mim por herança, dizem, de uns tais antepassados. Talvez, pelo fato de eu ser morena e todo mundo dizer que sou negra, chamo mais atenção e tenho a preferência. Acho isso uma grande bobagem porque, em todos os ambientes que visitei, a maioria é da minha cor, com a mesma origem que eu e, mesmo assim, não cheiram os meus pés, mesmo eu tendo mais idade.             Por tempos, eu me escondi de mim, mas hoje, reflito e asseguro que a minha profissão é o que sou. Digo isso para me justificar, porque eu poderia ter sido muitas coisas, mas por ser despudorada fiquei aqui, atendendo aos desejos dos outros por um preço cada vez menor. Minha mãe, enquanto foi viva, disse que eu nasci com a saf...

De través

Imagem
Rian Fontenele - noturnos Canções de afastamento Que o amor é um duelo, o amor entre um homem e uma mulher. Antonio Carlos Villaça 1º MOVIMENTO: volta Nas vezes em que ele saía, tudo acontecia do mesmo jeito: aquela cantilena enfadonha de enganar e ser enganada, nada de novo, a mesma traição ascética que morre na rotina dos prazeres. Nas vezes em que ele ficava, tudo parecia um sonho: de repente, o pesadelo de acreditar que o gozo nunca se liberta da imaginação: mas como acabar com o traiçoeiro engano? Ele que descubra nas noites mal dormidas, o resto de solidão que ainda me sobra. Nas vezes em que tudo parecia bem, as mesmas aparências mudavam de rumo: no trabalho, quanto engano, ele nem pressentia o fim, cada vez mais morria a última gota do derradeiro beijo: baba que ensaia vôos dormentes de uma adormecida paixão. Nem sei mais a quem traio – a própria traição ou a mim mesma. Olhos – tudo e nada mais – sem retorno: olho, de soslaio: olhos. E quantas vezes o sino tocará a sua...

Clichê [Parte 1]

Imagem
Davi Publicitário 15h59 Ela: Ele ainda não ligou confirmando. Ai meu Deus! Li na “Mulher Moderna” que ele SEMPRE ligará até as 16h. É o horário limite. Socorro! Ele: Put*aquepariu! Deadline, deadline, deadline... eu que vou ficar dead já, já. JÁ ESTOU INDO, CHEFE! 16h30 Ela: Pronto, desisti. Ele não vai ligar mais. 16h32 Ela: Onde está ele que não liga??? 16h33 Ela: Deve estar ocupado. É. Com certeza. Publicitários são bem ocupados. É... vou ali lavar os cabelos. Bendita folga que tirei hoje. 16h45 – No banho Ela: Oh Jesus, será que ele não gostou de mim? 17h Ele: Fim! Fiiiiiim! Material aprovado, campanha liberada, cliente feliz e meu emprego salvo. 17h05 Ele: E essa sensação de que estou esquecendo algo, hein? Vou já checar meus e-mails. 17h08 E-mail dela: Adorei ter te conhecido e mal posso esperar por nosso jantar amanhã. Beijos. Ele: !!! 17h09 Tu... Tu... Tu... Click... Ela: Alô? Ele: Nossos planos ainda estão de pé? Ela pensa: ...

Saudades de quem eu amava

Imagem
Muchacha dormida- Jan Vermeer Rokatia Kleania Professora Há dias estou querendo falar sobre isso e não consigo. Mas, hoje, chega! Vou falar! Meu peito anda apertado, sofrido, sangrando, querendo gritar de dor. Como dói não ter mais você comigo! Sinto muito a sua falta. Sinto mesmo! Quantas vezes, na calada da noite, flagro-me chorando sua ausência! Em outras me pego num bobo sorriso, movido pelas lembranças de tantos momentos felizes que juntos vivemos. Sem você, sinto-me desprotegida feito um cão sem dono, perdida como Teseu no labirinto e cansada, sem forças, feito um folião na quarta-feira de cinzas. Dizem que a saudade é uma palavra que só existe na Língua Portuguesa. Pode até ser. Mas duvido que o Aurélio consiga traduzir em palavras o que eu sinto agora. Na gramática, ela é um substantivo abstrato, mas em mim... Ah! Em mim, é algo bem concreto e real! A saudade que me maltrata tem nome, sobrenome CPF e RG. A saudade que corrói minha alma tem endereço, telefone, e-mail e...

Vertigem

Imagem
Evard Munch, O grito Eliana Klas Secretária Vertigem. É a primeira sensação. Frio. Não um frio comum, Mas um frio daqueles que começa na espinha e termina na alma. E o silêncio repleto de significado, paira no ar com peso de chumbo. Quase consegue tocar o silêncio. Não há mais riso, não tem mais música, Só o silêncio. Estático passa os olhos pelos mesmos lugares, Outrora cheios de vida, agora perdidos debaixo de uma fina poeira. De novo a vertigem. O chão? Cadê o chão? Ele estava aqui ainda há pouco, agora cadê? Tenta se sentar, pra recobrar a sensação de apoio. Mas não há apoio. As paredes também sumiram, o teto, o quintal... Toda a vida evaporou. Antes o ar era respirável, agora insuportável. Seco. Quente. Contraditório. Respira um ar quente, que entra e congela tudo por dentro. Devora-lhe por dentro o frio, e por fora o calor. O coração faz eco, no silêncio da noite. E o chão? Não o encontra mais, mas sabe que ele est...