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Insone ausência

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Nos braços de Morfeu - William Reynolds-Stephens Rokatia Kleania Professora É tarde. Meia noite em ponto. Hora de deitar. Amanhã será um dia daqueles, repleto de compromissos, filas quilométricas no banco, patrão chato pegando no pé. Vou dormir. Como todos os dias, realizo meu ritual antes do tão esperado repouso noturno. Tomo um bom banho. Preparo o leito. Vou até a cozinha, pego um copo d’água e coloco ao lado da cama, hábito herdado de um antigo relacionamento. Programo o despertador para me acordar às seis da manhã. Faço minha oração noturna. E pronto! Estou preparada para cair no sono. Deito-me. Por um bom tempo, fico a me revolver na cama, como se de algo sentisse falta. Procuro me acomodar confortavelmente em meu aconchegante berço. Quando finalmente encontro uma posição confortável, eis que percebo: você não está ali. Tomo um susto. Jurava que estava comigo! Meu Deus! Cadê você? Atarantada com tanto trabalho sequer havia percebido sua ausência. Passeio meus olhos pelo qu...

É preciso mudar

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Guto Cassiano Eliana Klas Secretária Por mais que neguemos, a política faz parte do nosso dia-a-dia. Não falo da política partidária. Era criança quando percebi que fazemos política o tempo todo: fazemos política com os coleguinhas na escola quando definimos nossos representantes de sala; a mamãe faz política na feira quando define a banca onde é mais bem tratada e onde o direito de ter o “tomate mais fresquinho” é respeitado; e fazemos política na vida quando elegemos pessoas para fazerem parte de nossas decisões. O fato é que não há como fugir da política. Também quando eu era criança decidi que não queria saber de mudar o mundo, a sociedade ou o que quer que fosse exigir minha vida e até minha alma. No fundo eu sempre achei que esta coisa de querer mudar o mundo era uma gigantesca fogueira de vaidades onde o que queremos mesmo é deixar nossa marca por onde passamos. A letra de música que diz “Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada!” ficava ‘quicando’ no meu cére...

Museu..eu..

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As três idades de mulher - Klimt Arlete Mendes Professora Estou preocupada. As octogenárias que aparecem na TV estão teimando em não envelhecer. As capas de revista são meninas de no máximo trinta, mas aparentam 15. E uma criancinha fica 4 horas no ar, perdida, coitada, feito mico de circo. Estão apagando a imagem da velhice dos nossos olhos e pouco a pouco de nossas mentes. Como nos sentirmos bem se sabemos que a cada dia caminhamos para isso? Como envelhecer quando tudo que nos lembra a velhice parece trazer uma espécie de mal estar? O fato é que estamos desaprendendo a envelhecer, ou, num olhar mais otimista, estamos ressignificando esse conceito. Comigo, claro, não é diferente. Sou um ser que vive as agruras de seu tempo. Dentre tantas, estará lá, talvez no topo, a ditadura da juventude eterna. A vontade de criarmos uma Neverland infinda, onde todos somos Peters Pan e vivemos aventuras inenarráveis todos os dias (descritas, registradas e narrada no mundo virtual, de preferên...

Zé Bedeu

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Mendigo Lapita , pintura de Henrique Pousão Regiane S. Cabral de Paiva Professora __ Corre, corre, lá vem o Zé Bedeu! Pronto, instalava-se aquela correria. Feito espalha-brasa, meus colegas e eu entrávamos na bodega do Cezinha para nos escondermos. Lá, disputávamos cada centímetro do balcão até termos certeza de que Zé Bedeu havia sumido completamente. Nunca soubemos onde ele morava, nem por que levava aquele nome. Simplesmente, ele surgia quando menos esperávamos. Coincidentemente, sempre que estávamos brincando de pega-pega na calçada... __ Cooooooooooorre, se não o Zé Bedeu pega! Só de ouvir o nome daquele homem, eu me assustava. Lembro-me que tremia feito vara verde cada vez que o via passar na rua. Às vezes, ficava escondida na sala da minha casa espiando através das venezianas. Zé Bedeu andava manco. Um de seus sapatos tinha mais altura no salto que o outro. Os olhos eram miudinhos e sombrios. O cabelo era fino e espetado. O rosto era meio deformado. Mas, o que me intrigava m...

Marcha da maconha

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Proibidoporque José de Paiva Rebouças Cronista Oi dona Fátima, hoje eu não quero cortar nem pintar. A senhora pode só alisar? Não, não é alisamento progressivo, só alisar com a escova, eu pago como se fosse um alisamento progressivo. Só quero conversar. O Arnaldo viajou de novo e não gosto quando fico sozinha. Não gosto de não ter com quem conversar. A senhora sabe, mulher gosta mais de falar do que de ganhar presente. Quer dizer, de ganhar presente e falar... Ai, eu morro de rir de mim mesma. Eu rio de muitas coisas, sabe, e não entendo a maioria delas. Quer ver? Me explique, dona Fátima, por que o povo é bom para defender coisas que, como diz o Arnaldo, não são “prioritárias”? A senhora viu essa tal de marcha da maconha? Minha nossa! Nossos meninos estudando em escolas caindo aos pedaços, meu carro com o aro amassado por causa dos buracos da rua e um monte de gente defendendo essa tal “descriminalização da maconha”! Até o FHC foi pra televisão defender o comércio da erva... A...

Metalinguagem biográfica

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Urubu - Quaderno Criação Davi Moura Publicitário É o processo de escrita da crônica que a torna tão mágica. Tenho que revelar: já achei isso de escrever uma bobagem. E mais raiva eu tinha quando me diziam, tão espertos que eram os adultos da minha época, em uma generalização de dar a gota em qualquer um: “Todos que lêem muito sabem escrever muito bem”. Logo, se você sabia ler muito e não escrevia bem (ou não escrevia, no meu caso) era doente e marginalizado. Por conseguinte, não merecia respeito nem apoio da sociedade. É. Criança pensa muita besteira. Cresci achando que me faltava algo. Afinal, eu não me encaixava no perfil dos escritores. Ficava tentando procurar minha espécie dos que “lêem, mas não escrevem”. E isso foi tarefa árdua. Comecei minha vida de menino “leiteiro” (o Ministério da Educação já nos permite falar errado ) aos 5 anos. Precoce. Super impulsionado por meu pai, que ficava pacientemente deitado em sua rede vermelha, com o guri pequenininho (na época. Hoje el...