Prezados Senhores e Senhoras, Venho por meio desta solicitar a todos e a todas um minuto de atenção, uma vez que, meus pronunciamentos costumam ser silenciosos e, de fato, eles são sempre de outra ordem, que não a discursiva, dessa forma, neste momento tomo a palavra. Reconheço que na vida sempre fui assim meio compacta. Não gosto de milongas nem delongas. Sou breve. Precisa. Pontual. Redonda. Acabada. Branca. Ao longo da minha existência influenciei a muitos, ganhei muitos adeptos. Uns famosos, outros anônimos. Ricos ou pobres me têm. Afinal, era símbolo de alívio, de pacificação, de equilíbrio. Sobretudo numa época como hoje quem será aquele que em sã consciência preferirá o caminho mais tortuoso? A dor deve ser evitada, tratada, extirpada a todo e a qualquer custo, já que o corpo precisa ser um templo de prazer e perfeição. Assim, todos os dias eu combato a dor. E olha que no mundo há mais dores do que se possa imaginar. Não sei bem ao certo, mas me parece que aquele potencia...
Théodore Géricault
Eliana Klas Secretária Os cronistas desta semana, aqui no A&U, cutucaram minha velha veia politizada, mas eu, mais uma vez, a ignorei. Não por desmerecê-la. Exatamente por reconhecer-lhe a força, mas principalmente, por ter consciência de que palavras sem ação são palavras mortas. Para não ceder à tentação e falar de política, revi o caminho de meus amigos cronistas e percebi que já era hora de contar sobre a figura medonha de minha rua, em minha infância. As minhas amigas aspirinas, contaram aqui, histórias de seus loucos e de seus medos de infância. Eu também preciso contar a minha. É difícil eu conseguir, ordenar os fatos, os medos e os cheiros, trago poucas lembranças dela. Ou, talvez, o velho medo disfarçado, me impeça de contar os detalhes. De tanto que o medo dela me consumiu, decidi afogá-la, e torço até hoje para que ninguém encontre seu corpo. Vou tentar ordenar os pensamentos com as lembranças que trago dela. Lembro dela brava gritando, mui...
Pierre Auguste Renoir _ La loge Quem nunca viu um homem se contorcer todo para mirar uma mulher que passa na rua? Assobio, piadinhas sem graça, boca aberta, cutucões. Será que nunca lhes ocorreu o quanto são, excepcionalmente, ridículos? Parece-me um comportamento extremamente ca-ver-no-so. Tudo bem que desde a pré-história o macho sempre está à caça de uma presa. De duas, três, talvez. Mas depois de tê-la, a busca continua sendo incansável. Pode até ser que não seja busca, mas que soa como carência, ah isso soa! Um, anda à toa, quase se esbarra num poste olhando a morena faceira; outro, numa moto, quase desloca o pescoço de tanto que girou para o lado esquerdo para ver a loirinha de ‘tomara que caia’; aquele lá, diminui a velocidade do carro como que já oferecendo carona às saias, aos shorts, aos vestidos, quem sabe! Fico me perguntando: o que eles tanto reparam? Seios, bunda, contorno das pernas, trejeito no andar; cor ou corte do cabelo; tipo de roupa ou os acessórios? Será que olh...
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